Frei
António das Chagas é o nome de religião que
tomou para si António da Fonseca Soares, quando professou na
Igreja de S. Francisco de Évora, em Maio de 1662. Nasceu na
Vidigueira a 25 de Junho de 1631. A personalidade de Frei
António das Chagas exerceu sobre os seus
contemporâneos um fascínio algo pertubador,
resultante, sem dúvida, do seu estatuto de convertido. Homem
tardiamente tocado pelo esclarecimento da graça divina, o
empenho combativo e radical de Frei António das Chagas
contrastava de tal modo com a ligeireza e relaxamento de costumes
em que, com alardeamento público, vivera a juventude, que
só a sua atitude penitente sob o hábito de S.
Francisco bastava para atrair multidões aos lugares por onde
passasse.
:
O seu
trabalho como pregador foi criticado pelo Padre António
Vieira, que o achava excessivo e teatral. Dos tratados espirituais
que escreveu destaca– se o "Tratado dos Gemidos
Espirituais, vertidos de um pedernal humano a golpes de Amor
Divino". As suas cartas foram compiladas no volume "Cartas
Espirituais" (Edição de Campo de Letras) e os
seus poemas foram publicados na "Fénix Renascida".
É desta última obra que se transcreve o seguinte
romance:
:
Romance de uma freira indo às
Caldas
:
Belisa, aquela beldade,
Cujas perfeições são
tais,
Que a formosura e juízo
Vivem nela muito em paz;
Aquela Circe das almas,
Cuja voz sempre será
Encanto dos alvedrios
E o pasmo de Portugal;
Enferma, bem que sublime,
De uns achaques mostras dá,
Pois às deidades também
Os males se atrevem já.
Por se livrar das moléstias
Que a costumam magoar,
Se negou remédio às vidas,
Por remédio às Caldas vai.
Aquele sol escondido
Entre as nuvens de um saial,
Se ocaso faz de um convento,
Do campo eclíptica faz.
:
Mas, logo que os campos lustra,
Alento e desmaios dá
Ao dia para luzir,
Ao Sol para se eclipsar.
Aos prados, a quem o Estio
Despe a gala natural,
Quando os olhos podem ver,
Flores tornam a enfeitar.
Dando-lhe a música os bosques
Com citara de cristal,
Parece entre os ramos verdes
Cada rouxinol um Brás.
A viração que entre as folhas
Sempre buliçosa está,
Ou já murmure ou suspire,
Faz de cada assopro um ai.
Cuido que, por festejá-la
Com contentamento igual,
As fontes querem tanger
E as plantas querem bailar.
:
António da Fonseca Soares, Fénix Renascida,
V
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